Passei por ti naquela rua, sem sequer te falar.
Senti o teu olhar cravado nas minhas costas, mas não travei os meus passos.
A chuva fria dava um brilho estranho às pedras da calçada.
Ouvi um gemido a esbater-se na noite.
Ou talvez fosse um grito …
Não sei …
O barulho dos carros que passavam lá em baixo confundiu-me.
Acendi outro cigarro e fiquei a ver o fumo misturar-se com a névoa que vinha do rio.
A tua imagem regressou…
Senti de novo o cheiro a álcool e a perfume barato, como se estivesses a meu lado.
Voltei atrás e procurei a tua sombra.
Continuavas encostada à parede e o teu cabelo desgrenhado, agitou-se quando notaste a minha presença …
Estendi a mão e sem saber porquê, acariciei-te o rosto.
Olhaste-me e por entre a pintura esborratada, pareceu-me ver um sorriso!
Com um sotaque estrangeiro pediste-me dinheiro…
Falas-te da fome…
Da falta de sorte…
Do teu país distante…
Dos teus…
Vi os teus sonhos desfeitos e a garrafa a teu lado.
Apontei o bar do outro lado da rua…
Seguiste-me.
Já sentados quebrei o silêncio.
Preenchi o teu vazio…
Fiz-te ser alguém outra vez…
Mostrei-te uma parte de mim.
Deixaste-me um pedaço de ti…
A madrugada entrou pela janela discreta lá ao fundo.
O nosso tempo estava a acabar.
Quiseste mais mesmo sabendo que não…
Cruzámos a porta e a rua voltou.
O mesmo cenário de betão…
A tua esquina e o meu caminho …
Despedi-me sem palavras e respondes-te com silêncio.
O elo quebrou-se…
Afastei-me…
Os dias transformaram-se em meses…
Não voltei a ver-te.
Apesar de fugaz esse momento ainda está vivo em mim.
Foi único, como todos os outros.
Se um dia nos encontrar-mos de novo, tenho quase a certeza que não me vou esquecer de perguntar …
Como te chamas?
Sombra
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