segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

A pila do João ...

O João não era um menino qualquer.
Era o melhor aluno da escola e a mãe não se cansava de o elogiar.
Vivia com a avó numa casa modesta com vista para o prédio em frente.
O João era feliz.
Não sabia que a mãe era puta e que o avô tinha dado um tiro nos cornos vai para dois anos.
Todos os dias, depois da escola, passava as tardes com uma tia que o adorava, mas estava longe de saber que ela afinal já tinha sido um homem.
Os amigos que tinha, escreviam sobre ele nas paredes das casas de banho, e ele pensava que estavam a gozar com o miúdo do 5º esquerdo.
O pai nunca lhe tinha batido nem levantado a voz, só não percebia porque diabo é que ele nunca podia sair do trabalho. Ainda por cima só o via uma vez por mês num prédio esquisito cheio de grades e homens vestidos da mesma maneira.
Tinha uma irmã de quem gostava muito, pelo menos quando não se babava por cima dele.
O João tinha uma vida perfeitamente normal, pelo menos até aquele dia ...
Estava ansioso pela primeira aula de natação, quando entrou com os colegas para o balneário.
Os olhos brilhavam e imaginava-se já na piscina enorme que tinha visto da entrada.
Tinha a pele completamente arrepiada antecipando a frescura da água.
E de repente o mundo do João ruiu. A tragédia foi anunciada pelo Ernesto, que estava sentado ao seu lado. Apontou para ele, e com um olhar assustado gritou:
- "Mas ele não tem pila !!"
O João ainda tentou disfarçar, mas quando olhou em volta a realidade atingiu-o em cheio. Estava cercado de meninos que tinham algo que lhe faltava.
A partir desse dia ele nunca mais foi o mesmo.
A vida que ele pensava ser perfeita, tinha sido ensombrada irremediavelmente ...
O destino tinha sido cruel.
A partir daquele dia não lhe restava outra solução a não ser usar saia e a chamar-se Joana.


Sombra

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Por vezes o horizonte não chega ...

Naquele dia saiu de casa sem destino, entrou no carro e perdeu-se no asfalto.
Passou por sítios que nunca mais vai encontrar.
Não sabe quantas vezes mudou de rumo ...
Lembra-se ainda da musica e da paisagem a desfilar, parecia mesmo uma aguarela.
A certa altura sentiu necessidade de abrandar, de tentar recuperar o controlo de si e voltar à segurança do seu espaço.
Parou ...
Havia casas mesmo ao lado.
Saiu do carro e olhou em volta.
O céu estava vermelho e não havia pessoas nas ruas.
Até o jardim lá em baixo estava vazio ...
Sentiu o odor abafado da solidão.
O silêncio era absolutamente ensurdecedor.
Nessa altura tomou uma decisão ...
Tinha que fugir.
Voltou para casa, entrou e fechou a porta.
Quando os olhos se fecharam no aconchego dos lençóis, sentiu-se aliviado ...
Afinal não tinha ido longe demais.

Sombra